Blog do Núcleo Ciência & Vida


Mudança

Caro leitor, nosso blog mudou de endereço, para uma melhor formatação.
Continue conferindo nossos posts agora no endereço:

http://conexoeshumanas.blogspot.com

Abraço da redação.

 



Escrito por Da Redação às 18h04
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Estréia na Leituras da História

Olá, queridos leitores! Esta é a minha estréia aqui no blog do Núcleo Ciência & Vida. Há menos de duas semanas me tornei a editora da revista Leituras da História, posto que antes era ocupado pelo meu colega Bruno Tripode. Espero manter o conteúdo da revista com o mesmo elevado padrão de qualidade de quando ela era liderada pelo Bruno e, para isso, conto com a colaboração de todos vocês: estou pronta para receber comentários, idéias de pautas, puxões de orelha, tanto pelo blog como pelo e-mail da redação (leiturasdahistoria@escala.com.br).

Também pretendo usar este espaço do blog para dar sugestões de filmes, documentários, livros e tudo mais que possa alimentar a paixão de pessoas como nós, aficionadas por História. E quero começar com o pé direito, indicando logo dois ótimos livros do biólogo norte-americano Jared Diamond: Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso, de 2005; e Armas, Germes e Aço, com o qual ele ganhou o prêmio Pulitzer, em 1998. Em Colapso, Jared investiga desastres ambientais, fatores geográficos e até história das religiões para explicar por que alguns povos que foram prósperos simplesmente desapareceram da face da Terra, como a sociedade da Ilha de Páscoa, os maias e os vikings. O livro é uma espécie de contraponto a Armas, Germes e Aço, em que o biólogo mostrou que os europeus se deram bem graças às condições climáticas, geográficas, o uso de metais e até uma mãozinha dada pelos animais domésticos, derrubando assim teorias racistas que defendem a superioridade do branco europeu. Bem, ambas as obras são excelentes e se complementam. Se tiver um tempinho, leia logo as duas.

 

Até a próxima semana!

 

 

                                                                                   * Sílvia Haidar é editora de

Leituras da História 

(Nas bancas, edição 10: Os estranhos animais do

novo mundo – Os índios e bichos que os europeus

esperavam encontrar no continente americano)



Escrito por Da Redação às 18h50
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Aborto e argumentos

* Por Jussara Goyano

 

Debruçada sobre novos temas, trago aqui, de tempos recentes, excertos dos mais curiosos a respeito da questão da legalização do aborto, colocada na pauta da saúde pública pelo ministro da saúde José Gomes Temporão (e aqui o trato com o devido e circunstancial respeito). Seriam argumentos (para) ou contra-argumentos à descriminalização desta prática tão popular quanto repudiada por cristãos e defensores da sociedade patriarcal, cuja visão se liga, ainda, ao conceito de família como núcleo reprodutivo (e sua cegueira se volta a negar os frangalhos de sua instituição – e declaro minha pouca força de vontade em evitar este comentário). Talvez seja um post um pouco longo, mas o tema merece espaço. Volto à História, então, para tecer depois, das bocas de sociólogos diversos (e gente de olho neles e números), a trama dos recortes. Vale lembrar que, na Grécia Antiga, as leis de Licurgo e de Solom e a legislação de Tebas e Mileto consideravam o aborto crime digno de alta punição. Na Idade Média, visigodos lançaram penas severas contra a prática, que também não teve a “menor consideração” da Igreja. Mas lembro, também, de memória escrita de outrem, que eram tempos outros.

Seria o aborto criminalizado “valor” irrecusável e universal
tanto quanto outros que se buscam até hoje?

Era preciso povoar o mundo (e o conceito de “vida”, em sua origem, ainda carecia de esclarecimentos científicos, de verdades “absolutas” não criacionistas). E o homem, de inclinação biológica à maciça reprodução, tripudiava sobre qualquer direito da mulher, fazendo valer seus instintos mesmo quando o amor romântico e o seio familiar vogavam nas civilizações. Seria, portanto, o aborto criminalizado um “valor” irrecusável e universal tanto quanto outros que se buscam até hoje (recorro aqui à história do pensamento e aos conceitos amplamente difundidos e pouco reciclados ou relativizados nas culturas)? Acredito que, assim, lançadas essas perguntas (e que venham as respostas ao longo ou ao final deste texto), possamos refletir juntos sobre a teia que se desenvolve abaixo. Inicio destacando uma fala que só não me causou mais perplexidade pelo possível embasamento teórico ou simpatia que esta encontre por aí. Parece que traduz uma perspectiva política do tema de que estamos tratando aqui:

 Para Bolan, quando o ministro diz que o aborto é uma questão de saúde pública, na verdade está utilizando eufemismo para ocultar os interesses que estão por trás desta situação. Para o professor, o que está em curso é um forte lobby internacional pressionando os países para aprovar legislações anti-vida, começando pelo aborto. (Site da Secretaria da Educação do Paraná - sobre artigo no Jornal do Estado, do professor e doutor em Sociologia Valmor Bolan)

Um lobby internacional anti-vida me soam as intermináveis disputas no Oriente Médio, as guerras civis africanas, os conflitos impetrados pelas FARC, a política da fome e ainda assim custo a acreditar que mortes como finalidade em si tenham a ver com tantos “assassinatos”. O lobby é pelo CAPITAL, sempre, quando não pela supremacia territorial ou cultural, étnica etc. Diante da falta do artigo na íntegra, fica para quem lê (e crê na fonte oficial) a impressão de que Bolan trata, neste caso, da morte como finalidade (talvez também se refira à pena de morte, ou à superpopulação mundial no texto completo - por favor, alguém pode me remeter o artigo na íntegra? Em nome da curiosidade jornalística e de certo cuidado nas interpretações que aqui faço.)

 

Elas ficam com a responsabilidade e os temidos inconvenientes dos efeitos secundários,
enquanto os homens só têm vantagens

De outro lado, vejo a discussão para além da questão política ou religiosa (que é difícil valorizar a vida sem sacralizá-la – ou sacralizá-la sem recorrer aos dogmas que nos são imputados, o que é tópico, talvez, para o próximo post de Paula Felix, editora de Filosofia Ciência & Vida, em uma reflexão são sobre laicidade). Retomemos o viés histórico desta temática e a interminável “guerra dos sexos” no debate das questões de gênero, no seguinte recorte:

 “O fato de as mulheres terem que tomar a pílula enquanto os homens são isentos lhes parece uma nova forma de dominação masculina. Elas ficam com a responsabilidade e os temidos inconvenientes dos efeitos secundários, enquanto os homens só têm vantagens”, destacou a socióloga francesa Michèle Ferrand, pesquisadora do Centre National de Recherche de Sociologie (CNRS), e pesquisadora associada do Institut National d’Etudes Démographiques (INED), durante sua aula inaugural do XI Curso de Metodologia de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva. Michèle falou sobre “A Sociologia da contracepção e do aborto”. (Do site do Centro Latino-americano em sexualidade e Direitos Humanos.)

É fato: o aborto é sempre um doloroso dilema individual feminino, assim como pesa para a mulher toda política de planejamento familiar (já que o uso da camisinha e a vasectomia ocorrem também e em maior número, se não me falha a memória do que li a respeito, por exigência dela). E noutro canto, de uma maneira simplista e agressiva, leio o governador do Rio de Janeiro metendo os pés pelas mãos, valendo-se do discurso de sociólogos respeitados no cenário internacional. E o aborto se tornaria, neste caso, o salvador de nossa economia e ordem social:

A idéia partiu do governador Sérgio Cabral Filho, no final de outubro: legalizar o aborto como forma de combater a violência no Rio de Janeiro. “Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, disse ele em entrevista exclusiva ao site G1. Para fundamentar sua afirmação, Cabral Filho recorreu aos norte-americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, autores do livro Freakonomics, no qual defendem a tese que liga aborto com a redução da criminalidade nos EUA. (Da revista Pesquisa Fapesp online.)

São várias frentes a atacar no universo das políticas públicas para resolver o problema do Rio, das favelas e subúrbios em geral, no qual a saúde pública caracteriza apenas a azeitona da enorme pizza. (E mais uma vez é a mulher que fica com o ônus de tudo)

Esqueceu-se o senhor governador que as causas da violência aparecem em estatísticas mais ligadas à economia nacional (leia-se “falta de emprego”), à educação e não à saúde ou mais precisamente à concepção. Nesse contexto, os jovens são frutos de famílias sem acesso a planejamento familiar (mas lembro que ter ou não filhos é sempre um dilema do casal – ou da mulher). Esses núcleos são chefiados por alcoólatras, gente sem auto-estima pela falta de um trabalho e sem instrução que lhe faça progredir. Daí os homens vão embora, os filhos ficam, as mães fazem o que podem e desdobram-se em bicos e subempregos para sustentar várias bocas. E a molecada desocupada, sem escola ou outra coisa para preencher-lhe o tempo, transforma-se em um bando de marginais. São várias frentes, assim, a atacar no universo das políticas públicas para resolver o problema do Rio, das favelas e subúrbios em geral, no qual a saúde pública caracteriza apenas a azeitona da enorme pizza. (E mais uma vez é a mulher que fica com o ônus de tudo - retomemos, pois, a discussão sobre as questões de gênero, junto ao queijo e à azeitona.) Voltando à saúde pública, parece que encontrei, enfim, uma informação interessante, que justifica o aborto tal como o coloca Temporão. Seriam estes números (estes sim) algo como uma política anti-vida (ou uma anti-política da vida):

O aborto que ocorre em condições de risco causa entre 50.000 e 100.000 mortes anualmente. Em alguns países, as complicações do aborto em condições de risco causam a maioria das mortes maternas e, em outros países, são as causas principais de morte da mulher em idade reprodutiva. A Organização Mundial da Saúde calcula que cada ano, até 20 milhões de abortos ocorrem em condições inadequadas e que entre 10% e 50% das mulheres que abortam requerem atenção médica por complicações. Ainda, muitas mulheres também precisam de atenção depois de um aborto espontâneo (perda da gravidez). Em 86 hospitais de um país, por exemplo, cada mês cerca de 28.000 mulheres procuram tratamento para as complicações de abortos em condições inadequadas ou de abortos espontâneos.(http://boasaude.uol.com.br/especiais/popreports_aborto/)

E por mais ônus que signifique para a mulher também “tirar um filho”, mesmo em condições legais, estas mortes ocorrem pelo fardo pesado que representam os números da criminalidade do aborto. Destaco então, outro recorte. Este me parece, de uma forma simplificada, uma amarração de tudo o que se lê até aqui, retomando os questionamentos primeiros (que dizem respeito à reciclagem dos valores recorrentes na história do pensamento e na formação das sociedades). O que vemos a seguir engloba educação, saúde, política e economia e poderia, em um futuro mais longínquo, ser fator de redução (em uma pizza completa, bem recheada) da violência no Rio de Janeiro e nas grandes metrópoles em geral:      

 

- A boa mãe

A passagem de um modelo de ‘maternidade suportada’ a um modelo de ‘maternidade voluntária’ se fez, na França, por meio da difusão daquilo que Michèle [a francesa Michèle Ferrand, socióloga] chama de ‘norma contraceptiva’, resultado um pouco paradoxal da reivindicação feminista ao direito a uma maternidade ‘totalmente controlada’. Essa ‘norma’ ajudou a produzir um novo modelo da “boa mãe”. Da mesma forma como há uma idade melhor para iniciar a vida sexual, existe também uma idade ideal para ser mãe – no caso francês, entre os 25 e os 35 anos. Antes dessa idade tida como ‘mínima’, a gravidez é considerada precoce. A gravidez na adolescência não se apresenta como um problema social na França, pois as moças, mesmo se menores de idade, têm direito ao aborto.
Outro aspecto dessa ‘norma contraceptiva’ é que a chegada de um filho deve ocorrer no ambiente adequado: um casal estável e com meios para cuidar da criança. O aborto é encarado como último recurso. “O aborto não aparece como uma alternativa à contracepção, mas como o meio de reparar seu fracasso”, declarou a pesquisadora durante a conferência. (Ainda do site do Centro Latino-americano em sexualidade e Direitos Humanos.)

 

E o aborto deixa de ser um ônus ou crime para ser uma opção. E a sociedade passa a enxergar algo mais além de um patriarcalismo já insustentável. E constitui-se, quando do trabalho preventivo de uma gravidez indesejada e da promoção de uma maternidade responsável, o retorno ao sólido núcleo familiar e a retomada de valores cristãos. Basta que alguém defina legalmente, por fim, o que é vida no ventre desta boa mãe.  Me parece um progresso... o que você acha, leitor?


* Jussara Goyano é
editora-chefe do Núcleo Ciência & Vida
(Nas bancas, edição 17 de
Sociologia Ciência & Vida: 
Uma mãozinha para o futuro -
Dossiê discute a infância e diagnósticos
auxiliares na formação de verdadeiros cidadãos
)




Categoria: Sociologia
Escrito por Da Redação às 19h59
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Vir a ser

 É sempre assim: quando digo que faço análise ou escrevo para a Psique, sempre me perguntam se "acredito" em terapia. Como se terapia e Freud fossem sinônimo de Deus e suas abordagens uma espécie de religião! É engraçado (para não dizer espantoso) como as pessoas reagem diante de uma possibilidade tão bacana como a de fazer análise ou terapia, que é poder, MAIS DO QUE TUDO, ter um tempo para parar, refletir, ordenar e desordenar (se for o caso!) os pensamentos, sentimentos, aflorar a nossa imaginação, enfim, compartilhar com um OUTRO isso que nos faz tão RICOS e tão ÚNICOS neste MUNDO — nosso mundo mental, nossa subjetividade, nossa capacidade e esforço de traduzir, expor e passar adiante o que somos, pensamos e sentimos.

 Diante dessas minhas inquietações e reflexões, recebi um texto bem bacana de um colaborador da Psique, Renato Dias Martino* — que já vem se tornando um amigo/consultor nas horas de aperto, que compartilho com vocês. Acho que o pensamento dele se afina com o meu. Espero que gostem. Ah! E para os que viram a revista Superinteressante deste mês questionando se terapia funciona, ele coloca aqui um outro ponto de vista e uma outra pergunta a fazer:

Por que fazer psicoterapia?         

 Se admitirmos que para cada coisa que podemos perceber no mundo externo — aquilo que somos capazes de apreender pelos órgãos dos sentidos —existe um equivalente em nosso mundo interno (o que imaginamos), aquilo que não depende da sensação, mas do sim do sentimento, talvez cheguemos à conclusão de que hoje, mais do que em qualquer outro período registrado na história do ser humano pensante, o mundo civilizado elege aquilo que é concreto ou palpável como indicativo ou referencial para definir aquele que possa ter se desenvolvido na vida, ou não. Ele é o que define como nunca foi, quem é "o bem sucedido na vida". O ser humano contemporâneo vem dedicando seu interesse quase que exclusivo a uma única modalidade: a de conquista de bens. Assim me parece caminhar o sujeito dos nossos tempos.

Nunca na história da humanidade o indivíduo esteve tão infértil (para não dizer estéril) na produção do pensamento. O bem material se tornou tão valorizado que sufoca a cada dia a capacidade de reflexão do homem. Lembro-me então do saudoso Raul Seixas quando cantava S.O.S.: "As mensagens que nos chegam sem parar, ninguém pode notar, estão muito ocupados para pensar...".

 Como poderia então um indivíduo se dispor a momentos nos quais a concretude das coisas simplesmente perde o valor e dentro de uma sala, deitado num divã, propor junto de seu analista pensar — e tentar por meio da reflexão entender sua dor, ou de alguma forma aliviar o peso de existir quando perceber sua angústia (inerente à alma humana)? Essa angústia que, com o nome de dor, a cada dia se torna mais localizada no corpo físico e longe dos conflitos psicológicos, ou pelo menos sem chance de associação entre uma e outra. Poderíamos dizer: cada dia mais perto do corpo (concreto) e mais distante da alma (subjetivo).

A tecnologia se desenvolve assustadoramente para dar conta dessa dor que surge no corpo. Medicamentos são desenvolvidos, cada vez mais eficazes para amenizar essa dor, e o homem ganha assim status e onipotência de um deus. A aceitação do próprio corpo, que poderia ser um bom exercício de reflexão sobre si mesmo, foi substituída por um avanço espantoso na medicina estética, com a colocação de próteses de silicone para introduzir o que se imagina faltar e retira o que não é desejável, e a "casca" do ser humano fica cada vez mais bela, por uma pequena fortuna. A evolução médica cura as mais variadas formas de câncer (muitas delas adquiridas pelo consumo de substâncias que ele próprio criou). Na Psiquiatria elaboram-se antidepressivos e ansiolíticos cada vez mais desenvolvidos e a cada dia ela se aplica menos em nome de uma patologia fisiológica, e mais em nome de uma Psiquiatria estética. Talvez o que realmente se devesse aplicar fosse certo trabalho psicoterapêutico, a fim de restabelecer a capacidade de pensamento e reflexão da própria vida. Entretanto, por outro lado o que vemos é a humanidade criar armas cada vez mais elaboradas para destruição em massa; promovendo catástrofes na natureza de grandes proporções, como derramamento de óleo no mar, desmatamento e destruições de rios com descarga de esgoto. Como escreve Freud em 1930, no texto O mal estar nas civilizações: "...As épocas futuras trarão com elas novas e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus...".

 Mas, esse desejo sendo realizado sem que se desenvolva a capacidade de pensamento, caracteriza um modo perigoso de caminhar. O indivíduo se vê impelido a buscar uma garantia concreta para o amanhã. Na busca pelo material, a rivalidade e a competição são conflitos sempre presentes. Em uma sociedade em que a família e suas tradições são cada dia menos valorizadas, fica também ameaçado o ambiente de acolhimento e segurança para se sonhar, imaginar e pensar. Desenvolver o aparelho pensador.

Penso que esse modelo de ser humano que somos hoje necessita urgentemente resgatar sua capacidade de pensar — a principal habilidade que nos difere dos outros animais. Pois, ao colocar essa capacidade em prática, também passa a valorizar o subjetivo. Aquilo que ainda não é, mas pode vir a ser. Esquecemos completamente que tudo aquilo que vemos é passageiro, mas aquilo que não se pode ver é eterno.

A psicanálise, assim como as psicoterapias, busca, sobretudo, reconstruir essa capacidade de pensamento e imaginação, propõe a produção de pensamento pelo pensamento, esse que constrói o amanhã. O amanhã que é sempre incerto e que na verdade ainda não existe, mas nos preocupa no que poderá nos trazer. O amanhã só existe hoje se pudermos imaginá-lo, pensá-lo em suas reais possibilidades. Na relação analítica, naquilo que se constrói entre terapeuta-paciente, o sujeito tem chance de se conhecer em seus desejos e seus medos (que andam lado a lado). É antes de tudo um movimento de expansão da capacidade de reflexão e pensamento. Nessa descoberta, podemos criar um modo de ser mais adequado para vivermos em um mundo que também se adaptará a nós.

 *Renato Dias Martino é psicólogo e psicoterapeuta.

Contato: renatodmartino@ig.com.br

 

* Gabriela Nascimento é editora de 

Psique Ciência & Vida.
(Nas bancas, a edição 30 — Violência

 Doméstica — A assistência às crianças

agredidas e as medidas  na recuperação

de seus principais  agressores: OS PAIS)

 



Categoria: Psicologia
Escrito por Da Redação às 15h48
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SÓCRATES E PLATÃO

Este texto é uma brincadeira sobre os diálogos de dois pilares da Filosofia, Sócrates e Platão, que recebi de um leitor da revista na semana passada. Uma forma interessante de introduzir a Filosofia na rede de ensino, de forma sutil e engraçada. O autor do texto é Márcio Alexandre da Silva, professor da rede pública, em São Paulo.

 

Dois alunos procuraram o educador de Filosofia pouco antes do inicio da aula e perguntam: podemos demonstrar um diálogo que produzimos com base nas aulas sobre Sócrates e Platão?

Com permissão do educador iniciaram apresentação:

O que interpretava Sócrates iniciou: — Vocês dizem que meu pensamento é dessa forma ou de outra. Como podem ler meu pensamento. Não escrevi uma palavra sequer!

Platão replica: — Não escreveu mesmo, bom mestre, mas disseste tudo!

O mestre Sócrates diz: — Mas muitas coisas não eram o que eu verdadeiramente queria dizer.

O discípulo Platão comenta: — Mas você foi um pensador que lançou idéias norteadoras, não há como ter controle sobre essas idéias, mestre.

Sócrates, pai da Filosofia desabafa: — Apenas busquei a verdade e a essência da vida.

Platão o chama de mestre: — Mas seu pensamento não mudou somente o mundo, mas, a si mesmo. Motivo esse que o tornou mestre a ser seguido.

 Sócrates diz indignado: — Mas você fez muita apologia sobre mim que não precisava.

Platão o interroga: — Você não se considera um paradigma cético?

Sócrates discursa um pouco mais: — Critiquei veementemente as formas de saber dos políticos, poetas e artesões. Declarei até não saber certas coisas. Mas isso nunca pode ser considerado um ceticismo!

Platão o interroga em tom agressivo: — Então, o que pretendia?

Sócrates delicadamente responde: — Na verdade, pretendi transferir o eixo da Filosofia da Natureza (Physis), para valores humanos (Antropos).

Platão praticamente se defende: — O que te condenou não foram os nossos escritos, mas a sua sabedoria! Não achas?

Sócrates é irônico: — Mas qual sabedoria?

Platão economiza retórica e emenda: — Obviamente a humana, que o tornou de fato um sábio.

Sócrates é mais irônico do que outrora, ele ri escancaradamente, enfatizando a ironia socrática presente nas suas ações.

 Platão se irrita e cita os deuses do Olímpio: — Não sei por que ri. Pois quando Querofontes perguntas ao Oráculo de Delfos se haveria alguém mais sábio do que tu,  ele disse que você era o mais sábio de todos os mortais da sua época.

Sócrates retoma a sua humildade habitual e diz: — Que isso não sirva para que eu me ensoberbeça, conclui o sábio.

 

MÁRCIO ALEXANDRE DA SILVA – formado em Filosofia, educador da rede pública de Ensino no Estado de São Paulo.


* Paula Felix Palma é editora de
Filosofia Ciência & Vida.
(Nas bancas, a edição especial de

aniversário 24 - Socrates, Platão e

 Aristóteles e seus relcionamentos

conturbados- Pensarores desonvolviam

teorias que nem eles mesmos conseguiam

aplicar em suas relações amorosas)

 

 



Escrito por Da Redação às 10h25
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Auto-flagelação de despedida

 

Ando completamente sem nada a dizer para o mundo. Tanto que nesse espaço reservado a minha escrita vou publicar um texto que mete o pau no meu editorial da edição 2. É uma espécie de auto-flagelação punitiva pela minha falta de idéias. Segue o texto:

 

Sr Editor

           

Estou chocado com a forma como Vossa Sª tripudiou das mais elementares normas da história ao colocar na boca de um personagem histórico, o Papa Urbano II, palavras ou intenções que ele, absolutamente, não pronunciou. A não ser que o tenha dito a Vossa Sª, só não sei como, pois os séculos estragam muito a pessoa.

No seu editorial (Leituras da História; n° 2) eu li, pela primeira vez, que o discurso de Urbano II em Clermont Ferrand, incitando à primeira cruzada, foi a oficialização, ou formalização, da civilização ocidental, criada sob o símbolo da intolerância e da violência contra o outro, principalmente conta os “infiéis” do Islam, mas os fatos apontam noutra direção.

a) A formalização do Ocidente se dará com a sistematização da filosofia e o surgimento da democracia na Grécia, rompendo com a visão estritamente teológica e despótica, não raro intolerante e tipicamente oriental. O cidadão grego comum tinha clara essa noção ao definir os bárbaros como “agorai bouleteroi” (se não me falha a memória), que segundo André Gorz, em seu livro “A cidade grega”, quer dizer: “aqueles que não se reúnem na ágora”, a praça pública, para discutir assuntos do interesse da coletividade, pois o déspota oriental antigo detestava as multidões. Por sinal a Igreja não só adotará a praça, como a abençoará, deixando que se crie um uma praça em frente às suas igrejas. A praça é um fenômeno ocidental por excelência.

b) Outro elemento importante, e formal, na criação do ocidente foi o direito romano, que tirava do governante o poder de decidir arbitrariamente sobre a vida e a morte de seus súditos, e que foi também assumido pela Igreja, embora não pelos antigos soberanos orientais. Ou seja, foi a Igreja quem se submeteu e se definiu a partir do ocidente e não o contrário, pois ela também nasceu no oriente.

c) O senhor parece ignorar que a maior parte da população cristã, no momento em que Urbano II pronunciou essas palavras, os cristãos orientais, que jamais foram tratados oficialmente como “infiéis”, sequer estavam sob a jurisdição do Papa – o saque feito pelos cruzados em Constantinopla, em 1204, a pedido dos mercadores venezianos, foi severamente condenado pelo Papa da época.

d) Todo combate à intolerância é bem vindo, mas deve ser dirigido contra todas as fontes de intolerância, pois se é verdade que na Idade Média o Papado concitou os europeus a combaterem o Islam, a recíproca também é verdadeira, tendo sido eles os primeiros a tomar a iniciativa invadindo a Europa, pela Espanha, em 711. Lembra?  Sem falar que em 846 uma frota muçulmana subiu o rio Tibre e saqueou as basílicas de São Pedro e a de São Paulo, levando até os mármores do pavimento, causando grande mortandade nos arredores! Tal desrespeito nunca foi cometido contra Meca.

e) E o que dizer da situação atual? A Igreja já abandonou, há muito, esse discurso de “guerra santa”, mas suas “vítimas” aparentemente não. Vivemos uma “Jihad” completamente ensandecida em pleno século XXI, onde aviões repletos de mulheres e crianças inocentes são atirados contra prédios civis, para causar o maior número de mortes possível, ao contrário das guerras religiosas medievais que tinham por principal objetivo (para ambos os lados) converter o maior número possível de inimigos. É genocídio puro!

f) O que dizer dos judeus, as eternas vítimas da inquisição católica? Pois bem depois que criaram o seu estado, em 1948, expulsaram mais de um milhão de palestinos de suas terras, e mataram impunemente milhares deles, diante de câmeras de fotográficas e de televisão, em pleno século XX e XXI, enquanto desenvolve unilateralmente armas nucleares, e fica tudo por isso mesmo!

g) O que dizer dos Estados Unidos, bastião do iluminismo liberal, originalmente anticlerical, que matou impunemente a milhões no Vietnã e nesse momento arrasa e massacra o Iraque só para se apropriar de seu petróleo? Como o Papado tem se manifestado nesses episódios de nossos dias? É melhor que ninguém saiba, ou provavelmente isso não passa de um mero detalhe para pessoas mais interessadas em vasculhar crimes reais ou imaginados na Idade Média.

Ah! que bom seria se tivesse havido alguém com autoridade moral e política forte o bastante para dizer a um Hitler ou a um George Bush, “não te é lícito”, e com isso brecar as iniciativas desses desvairados, mas, ai de nós, não estamos mais na Idade Média! O que predomina agora é a força, a crueldade e a ignorância.

Por conseguinte, caro editor, não é necessário apelar para distorções ou a discursos imaginários, para fazer aquilo que no ocidente já é milenarmente tradicional: o direito à curiosidade, ao gosto pelas novidades e pelo conhecimento do real, seja daqui seja de outra parte. Pelo contrário, só nos resta torcer para que um dia os povos do oriente, principalmente no Islam, tenham essa mesma abertura.

 

Prof Eduardo Simões (história) – EE Elvira Giannico (Guaratinguetá)

 

Em minha defesa digo que não só não ignoro os fatos de A a G como concordo parcialmente com a opinião do Prof. Simões. Acontece que fiz um recorte. Alguns historiadores consideram as cruzadas como evento essencial na fundação ocidental. Para eles, seguimos uma moral e forma de pensar herdada do medievo e compreenderíamos pouco o modus operandis dos antigos. Não concordo necessariamente, porque sou fã dos gregos e romanos, mas como a edição trazia artigos sobre o islã, resolvi tocar nesse ponto em particular. Acho também que o mundo ocidental nessa época era muito mais oprimido pelo islã do que o contrário, mas isso não exclui o fato de que o bastião do pensamento dos grandes monoteísmos é o de que existe uma Verdade e os não convertidos à sua própria fé (incluo aí judaísmo, cristianismo e islamismo), não aceitam esta Verdade e estão danados e perdidos. Além do que, em tempos brutais, o inimigo ideológico é animalizado e objetificado para que sua palavra ou vida não valham tanto quanto a de um inserido na crença. Afinal, um diálogo aberto é perigoso em qualquer sistema baseado em dogmas, incluindo não apenas religião, mas também modos de produção ou de comportamento. Em suma, ao apontar uma característica cruel do catolicismo não procurei fazer apologias a nenhum outro sistema de crenças e tampouco à humanidade, que é feita da mesma matéria em todos os continentes. Matéria esta que pode ser mais ou menos moldada, mas que continua a ser matéria, mesmo isso sendo um incômodo para nossa espécie desde seu surgimento.

            Outro ponto: Que as palavras do editorial não foram pronunciadas por Urbano II era óbvio. Considero muito chatos os editoriais didáticos e neutros por isso pulo essa parte. Pulo tanto que chego a tripudiar “das mais elementares normas da história”.Todavia acho esse é um habito de família, terrível, que aposta na capacidade e no bom senso alheios em interpretar sensatamente minhas palavras, por mais obscuras e distorcidas que possam parecer.

            Pra finalizar, gostaria de mandar um beijo de despedida pra minha mãe, pro meu pai e pra você, pois a edição 11 de Leituras da História é minha última. A partir do meio de julho estarei tripudiando em outros teclados, mas sempre que puder darei um ou dois (não três) pulinhos aqui nesta publicação, questa bambina mia!

  
* Bruno Tripode Bartaquini é
editor de Leituras da História
(Nas bancas, edição 9:
Crise no comando do mundo - Os fatos
que puseram abaixo a histórica hegemonia dos
Estados Unidos e enfraqueceram um império
inabalável há mais de meio século.
Haverá saída para o legado Bush?
)



Escrito por Da Redação às 19h51
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A gente já tá esperta...

* Por Jussara Goyano

Aproveitando o gancho da nutrição, vale à pena comentar a matéria divulgada pela Agência Fapesp (abaixo). Mães com acesso ao sistema público de saúde são instruídas a fornecer a seus pequenos, durante os dois primeiros anos de idade dos filhos, pelo menos, doses diárias de vitamina A. Essa instrução, que até pouco tempo era de pequeno alcance (pois registrou-se maior acesso ao sistema público de saúde, também na pesquisa do Temporão), deve estar fazendo a diferença na taxa de desnutrição e também de mortalidade infantil, entre outras medidas não comentadas (nem vou retomar, então, a questão da eficácia do Bolsa Família...). Falando de Ciência – medicina, especificamente – vamos à notícia, que maximiza o potencial dessa prática que os médicos brasileiros disseminam:

 


7/07/2008 - Vitamina A para sobreviver

 

Uma dose única oral de vitamina A dada a uma criança que acaba de nascer pode reduzir, nos países em desenvolvimento, o risco de morte em 15%. A conclusão é de um estudo conduzido na Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

A pesquisa envolveu cerca de 16 mil recém-nascidos de comunidades rurais no noroeste de Bangladesh, em região em que 90% das crianças não nascem em hospitais ou clínicas, mas em casa. Metade dos bebês recebeu uma dose de 50 mil UI (unidades internacionais) de vitamina A, enquanto os demais receberam placebo.

Segundo o estudo, publicado na edição de julho da revista Pediatrics, a dose foi dada oralmente em média sete horas após o nascimento. Os autores verificaram que a taxa de mortalidade para o grupo que recebeu a dose ficou em 38,5 a cada mil nascidos. No outro grupo, foi de 45,1 mortes por mil.


Jussara Goyano é
editora-chefe do Núcleo Ciência & Vida



Escrito por Da Redação às 19h30
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Não sei...

* Por Jussara Goyano

Busco alguns esclarecimentos. Tenho dúvidas crônicas sobre a eficácia de programas sociais paternalistas, que dão o peixe e não criam necessariamente condições para pescar. Não consigo chegar a uma conclusão, mesmo diante da pesquisa divulgada amplamente pela mídia, revelando dados extremamente positivos do “Ministério do Temporão” sobre o desenvolvimento de nossas crianças e questões relativas à fecundidade feminina.  Não sei se a insatisfação registrada pela pesquisa, explicitada em matéria de O Globo , é reflexo do acomodamento do povo em função de “bolsas disto e daquilo”. Mas, pense comigo, arguto (a) leitor (a): sim, a desnutrição caiu mais da metade, mas algo bem próximo da metade da população ouvida na pesquisa parece estar angustiada com a falta de dinheiro para comprar comida em quantidade e qualidade. Será que falam pela bolsa pequena, demonstrando essa angústia na ânsia de uma bolsa maior? Ou buscam oportunidades de emprego e outras que façam a bolsa render mais?. De qualquer forma, garantir uma renda mínima e massificá-la sem qualquer outro suporte pode ser uma medida de massificar também a pobreza, mas de maneira perpétua. Ou não? Continuo sem saber...

Abaixo, excertos da matéria, quase isenta de críticas ao carro-chefe da plataforma de governo do presidente Lula (!):

“Segundo o estudo, a parcela de crianças de até 5 anos que sofrem de desnutrição crônica caiu de 13% para 7%. O índice leva em conta o déficit de altura em relação à idade. Entre as crianças nordestinas, a taxa de desnutrição diminuiu de 22% para 5,7%. O número de crianças com excesso de peso variou pouco, e ficou em 6,6%.”

“Temporão disse que o resultado deve ser comemorado, e atribuiu parte da evolução aos programas de transferência de renda do governo federal, como o Bolsa Família:

- A desnutrição se reduziu drasticamente. É evidente que há um impacto das políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e da ampliação do emprego e da renda média. O que a pesquisa mostra é que o padrão alimentar melhorou, o consumo de alimentos foi ampliado.”

A pesquisa registrou a insatisfação das mães com a falta de dinheiro para comprar comida: 37,5% afirmaram não ter acesso a alimentação em quantidade e qualidade suficiente para suas famílias. No Nordeste, esse número salta para 54,6”

 


Jussara Goyano é
editora-chefe do Núcleo Ciência & Vida
(Nas bancas, edição 17 de
Sociologia Ciência & Vida
Uma mãozinha para o futuro -
Dossiê discute a infância e diagnósticos
auxiliares na formação de verdadeiros cidadãos
)

 



Categoria: Sociologia
Escrito por Da Redação às 19h15
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Sobre o medo, estado de natureza e outras coisas

* Por Paula Felix

 

Continuando a temática da situação atual de angústia, busca pela felicidade e caos social, eu gostaria de citar Hobbes. O pensador, cuja bibliografia mostra que o medo é mote central de sua obra, justamente por conta de sua vida amedrontada, reservada por receio às relações intersubjetivas, afirma categoricamente que o homem vive em sociedade por MEDO.

 

E por quê? Que medo é esse?
Qual seria nossa alternativa?

 

Vamos por partes: ao contrário do dualista Platão, que divide o corpo e a mente e Descartes, que discorre sobre o res cogitas e res extensa (substância pensante e matéria), o inglês Thomas Hobbes é um monista, que afirma que o corpo é quem pensa.   Essa íntima relação entre a deliberação racional e os afetos, ou seja, a relação entre o que penso e o que sinto é o que faz o homem passar do estado de natureza – aí estaria nossa alternativa - para o estado de sociedade.

 

O estado de natureza de Hobbes nada tem a ver com belas paisagens e o sol se pondo. Mas sim, um estado de guerra, em que o homem delibera pela lógica da proteção do próprio conatus. Todos os homens são inimigos em potencial.“O homem é o lobo do homem”, já dizia a célebre frase do pensador. Então lá, no estado de natureza, a chance de se “entristecer” é muito maior.  Por isso, viver no estado de sociedade é viver sobre a égide de Leviatã, um monstro, um ser que controla as nossas vidas.


Qual é a nossa vantagem?

Lembremos que Hobbes era um cidadão amedrontado e seu maior medo era o da morte violenta. Ou seja, viver em sociedade, com o escudo de outrem, é muito mais cômodo. Mas essa proteção não é gratuita. Eu abro mão de uma porção de coisas, como prerrogativas sexuais, financeiras (os tributos) e passo por uma diligência moral constante, para ter a minha segurança garantida. Segurança... É para isso que o “estado” ou “Leviatã” servem, para garantir a segurança. Ou teriam que servir. Alguma analogia a nossa forma de governo atual? Sim, assim teria que ser. Para isso entregamos todas as nossas prerrogativas... Mas o nosso “Leviatã” parece não funcionar.

 

Voltemos ao medo: o medo é um afeto triste
ou, como denominava Hobbes, é a passagem de
um estado potente para um estado menos potente.

 

Ele usa o conatus para explicar esse medo. Conatus, que é a força, movimento, potência, tem correspondência em outros pensadores: é a potência de agir para Espinosa, a libido de Freud, amour de soi de Rousseau. O medo, portanto é o apequenamento dessa força, diminuindo o poder de agir e nos paralisando. E a diminuição do conatus determinado para o mundo imaginado é o medo.

Por outro lado, a esperança é o aumento do conatus para o mundo cogitado. Assim, o medo e a esperança são decorrentes da imaginação, daquilo que ainda não aconteceu, mas é um afeto determinado pelo próprio corpo.
A morte seria, segundo ele, a prova obvia da vitória da tristeza sobre a alegria. Espinosa concordaria, acrescentando que morremos desde que nascemos, um pouco a cada dia. A tristeza é a morte e quem mata é o mundo.

 

Aí chegamos a um ponto interessante: segundo o nosso pensador, há dois tipos de conatus, o que pensamos e o que encontramos pela vida. Contudo, é impossível controlar o conatus que se pensa, segundo Hobbes. Assim, você pode comprar uma chácara em um lugar distante para se evitar o conatus que se encontra. Mas não vai evitar o conatus que se pensa. De acordo com suas idéias, então, o conatus não é só potência do corpo, mas também do pensamento, da imaginação.

 

A nossa doente lógica capitalista também poderia ser explicada ou justificada de acordo com o pensamento hobbesiano. A posse é um artifício para elevar o conatus do homem. O meu carro novo, por exemplo, me faz feliz, eleva meu conatus. E para ter a alegria toda a vez que precisar, ele tem que ser meu a hora que eu quiser. A exclusividade exclui o outro e eis o porquê da posse.

 


* Paula Felix é editora de
Filosofia Ciência & Vida.
(Nas bancas, a edição 23 - Felicidade em
Sêneca e Sponville
- Filósofos
usam Mito de Pandora para explicar que a esperança
seria um mal contido numa caixa:
o verdadeiro obstáculo para uma vida feliz) 
 

 



Categoria: Filosofia
Escrito por Da Redação às 17h48
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Forma esperta, essência burra

*Por Bruno Tripode

 

Sociedades organizam-se de acordo com necessidades estruturais. Essas necessidades nunca são completamente claras, e economistas, historiadores, sociólogos entre outras tantas categorias, incluindo geneticistas, discutem quais são essas estruturas, como funcionam e quais são as primordiais, das quais podemos extrair regras fundamentais para o funcionamento social. 

Alianças com o inimigo do inimigo assim como exploração do próprio povo à exaustão são comportamentos intrigantes. A questão é que, quanto mais coesa e justa uma sociedade é, mais competitiva ela será em relação às outras. Mas a competição interna também deve ser levada em conta e pode engessar uma sociedade e enfraquecê-la.

Hoje nosso aliado circunstancial contra a solidão existencial é a produção desenfreada. Continuemos com a mentalidade de que trabalhar mais é sinal de bom caráter e sigamos admirando empresários e políticos exploradores de mentalidade retrógrada,
mas pró-ativa


Por exemplo. Os índios brasileiros não sabiam que eram uma sociedade à parte se comparados aos habitantes do velho mundo. Logo, os trataram como se fossem mais uma tribo.Os europeus conheciam seu continente a Ásia e a África. Os tupiniquins e tupinambás não tinham a mínima idéia do tamanho e localização do resto do mundo. Sim, os líderes de ambas as tribos acumularam riquezas e poder associando-se aos portugueses e franceses. Mas não sabiam que se aliavam a um monstro devorador comum, a modernidade capitalista, que os fagocitaria completamente num período de quatro séculos.


Outro exemplo são os negros da áfrica que vendiam as etnias vizinhas aos escravistas europeus: Não reconheciam os compradores como um outro diferente de seus inimigos tradicionais. Gregos que se aliaram aos persas, gauleses que se aliaram aos romanos, todas histórias de quem se aliou ao inimigo do inimigo e acabou vencido pelo antigo aliado circunstancial.


Hoje nosso aliado circunstancial contra a solidão existencial é a produção desenfreada. Continuemos com a mentalidade de que trabalhar mais é sinal de bom caráter e sigamos admirando empresários e políticos exploradores de mentalidade retrógrada, mas pró-ativa, que nosso futuro está traçado: miséria num mundo insalubre, pois não temos a menor noção de quem é o inimigo de nosso inimigo.

 

  
* Bruno Tripode Bartaquini é
editor de Leituras da História
(Nas bancas, edição 9:
Crise no comando do mundo - Os fatos
que puseram abaixo a histórica hegemonia dos
Estados Unidos e enfraqueceram um império
inabalável há mais de meio século.
Haverá saída para o legado Bush?
)



Categoria: História
Escrito por Da Redação às 15h39
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Interessante recorte

* Por Jussara Goyano

 

O “Colóquio 2010-2020: Um período promissor para o Brasil”, encerrado na última quinta-feira (26/6), em São Paulo, homenageou os 60 anos de atuação profissional do físico e político José Goldemberg, ex-Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e membro da Academia Brasileira de Ciências. O evento ocorreu para discutir a relação Ciência e desenvolvimento no País e um dos destaques da discussão, que recorto aqui, em forma de depoimento, remonta ao futuro da educação brasileira, indicando o papel fundamental das universidades, não somente no setor de Pesquisa de Desenvolvimento (P&D), mas na formação de mão-de-obra qualificada para o ensino básico e na construção de caminhos que contribuam para a melhoria do mesmo e para sua própria reciclagem.

"O debate em torno do papel da universidade no desenvolvimento concluiu que ela precisará contribuir com a melhora do ensino básico, além de repensar seu modelo institucional e criar novas redes de conhecimento. 'É preciso manter a defesa do mérito e da qualidade. Seria trágico que a USP, por exemplo, procurasse passar dos atuais 70 mil estudantes para 350 mil, a exemplo da Universidade do México. Ela perderia a qualidade que a caracteriza', afirmou Goldemberg" - Fonte: Agência Fapesp.

A impressão que fica desta fala, em uma livre e descontextualizada interpretação, é a de que prevalece no Brasil a idéia da necessidade de formar pessoas para o mercado de trabalho, oferecendo conhecimento específico, subjugando o alicerce que dá suporte a esta formação. Em Sociologia Ciência & Vida 16, comenta-se, a propósito, o alto número de analfabetos funcionais do País. E não é preciso muita instrução ou informação para perceber, em uma conta simples, que o desemprego cresce à medida que não se tem mão-de-obra qualificada, ainda que aumente progressivamente o número de vagas disponíveis no ensino superior (pagas ou não). Sinal claro de que há gastos de energia e dinheiro mal empregados, tanto para um objetivo (formar para o mercado) quanto para outro (formar CIDADÃOS). Peço aos senhores pesquisadores da área de humanas que divulguem os trabalhos que, de alguma maneira, constituam caminhos ou diagnósticos em busca de uma solução para este quadro. Pauta certa para as revistas do nosso Núcleo. Vamos conversar a respeito?


Jussara Goyano é
editora-chefe do Núcleo Ciência & Vida



Categoria: Divulgação Científica
Escrito por Da Redação às 12h51
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Sinsesp na Organização do II Seminário sobre Ensino de Sociologia da USP

* Por Jussara Goyano

Caro leitor, publico, a seguir, notícia que recebi em boletim do Sindicato dos Sociólogos de São Paulo (Sinsesp), sobre um evento interessante em um debate presente em nossa revista Sociologia Ciência & Vida desde seu início, com sua programação provisória, ainda. Trata-se de um Seminário que vai ocorrer na Universidade de São Paulo, com apoio do Sindicato e da Secretaria da Educação, organizado pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e pelo Departamento de Sociologia da FFLCH, que ocorrerá os próximos dias 21 a 24 de julho, na Faculdade da USP. Ele se propõe a discutir assuntos importantes para todos nós, como conteúdos programáticos, metodologias, quem pode lecionar, formação de professores etc. O Sinsesp vai participar de uma das mesas. Todos os professores da rede que lecionam ou lecionaram Sociologia será convidados a participar pela Secretaria, receberão certificado especial que vai valer pontos em concursos públicos futuros (veja matéria sobre isso).

21 a 24 de Julho de 2008 – Segunda à Quinta-feira Universidade de São Paulo – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Departamento de Sociologia – Sociedade Brasileira de Sociologia - SBS Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo – Sinsesp Secretaria Estadual de Educação

Programação

21 de Julho
19h Abertura
19h30 Conferência: Prof. José de Souza Martins

22 de Julho
10h Sociedade Brasileira de Sociologia
12h30 Almoço
14h Grupo de Trabalho: Currículo de Sociologia

23 de Julho
10h Faculdade de Educação + Sindicato dos Sociólogos
12h30 Almoço
14h Grupo de Trabalho: Estrutura de Ensino e Metodologia

24 de Julho
10h Departamento de Sociologia – USP
12h30 Almoço
14h Grupo de Trabalho: Sociologia e movimentos sociais
17h30 Encerramento: Ruy Braga

Comissão Organizadora

Heloísa Martins
Amaury César Moraes
Ruy Braga

 


Jussara Goyano é
editora-chefe do Núcleo Ciência & Vida
(Nas bancas, edição 17 de
Sociologia Ciência & Vida
Uma mãozinha para o futuro -
Dossiê discute a infância e diagnósticos
auxiliares na formação de verdadeiros cidadãos
)




Categoria: Sociologia
Escrito por Da Redação às 12h33
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Para refletir o transexualismo

* Por Gabriela Nascimento

 

Li, em recente nota na Internet, a seguinte “curiosidade”, aliás o que me chamou a atenção é tal notícia estar em uma seção intitulada “Acredite se quiser”, do jornal IOL Portugal diário... Afinal, sempre que o tema é homossexualismo e transexualismo, parece que o tom vem acompanhado de certa ironia, brincadeira ou, para ser branda, de algum deboche. Acompanhem:

 

Transexual britânico casa com ex-mulher

 

James Humphrey Morris divorciou-se de Elizabeth em 1972 depois de ter mudado de sexo e 36 anos mais tarde volta a casar com a ex-mulher mas como Jan Morris

 

Elizabeth e James Morris divorciaram-se em 1972 depois de James ter anunciado que iria fazer uma operação para mudar de sexo.

Apesar do divórcio, a agora Jan Morris e Elizabeth continuaram a viver juntas em Llanystumdwy, no País de Gales. Trinta e seis anos depois, Morris, considerada como uma das mais importantes escritoras britânicas do período pós-guerra, anunciou o seu novo casamento.

Enquanto falava do seu mais recente livro no programa Bookclub da Rádio 4 da BBC a escritora mostrou-se muito feliz por dois motivos. Primeiro porque tinha escrito um livro para lançar após a sua morte e segundo porque finalmente tinha realizado a união civil com a sua companheira de há 60 anos.

 

Para mim, é simples e nada de “acredite se quiser”: o amor venceu! Superada a crise e a dor do existir discordante entre o ser e sentir ser (leia-se: quando houve concordância entre o psíquico e a anatomia), sobrou espaço para permitir amar e o amor permite TUDO!

 

Aceito novos pontos de vistas...

Aproveitemos e criemos um debate sobre o assunto. Alguém se habilita?

 

* Gabriela Nascimento é editora de 
Psique Ciência & Vida.
(Nas bancas, a edição 29 - 
Síndrome
de Tourette 
- Como portadores e
familiares driblam sofrimentos e estigmas
causados pelos tiques múltiplos
decorrentes do distúrbio)


 

 



Categoria: Psicologia
Escrito por Da Redação às 17h46
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A vitória da Filosofia!

* Por Paula Felix

 

No último dia 2, o presidente da República em exercício, José Alencar, sancionou a lei que obriga as disciplinas de Filosofia e Sociologia no currículo dos três anos do ensino médio, em todo o Brasil. A nova lei altera o artigo 36 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 20 de dezembro de 1996 e as escolas têm um ano para se adaptar. Essa era uma luta antiga, desde que as disciplinas foram retiradas do currículo na época do regime militar (1964 – 1985) com o intuito, dizem muitos, de diminuir o poder crítico dos jovens.  Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso vetou o projeto que incluía novamente as disciplinas, com o argumento, desta vez, de que iria onerar os Estados e de que, principalmente, não havia profissionais habilitados a dar aulas nessas disciplinas pelo país. Conversei sobre o assunto com o professor e membro do Conselho Gestor do ITECNE em Curitiba, Ivo José Triches, que também é Mestre em Mídia e Conhecimento pela UFSC, especialista em Filosofia Pensamento Contemporâneo pela PUC-PR, em Filosofia Política pela UFPR e em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. Para ele, a resolução vai ajudar os alunos a dar uma significação às muitas informações que os jovens recebem hoje em dia - na era do conhecimento - e contribuirá na busca e na organização das idéias. Ele comenta também sobre a falta de profissionais habilitados para lecionar a disciplina no Brasil.

 

Paula: O que você acha da aprovação dessa lei e qual a importância dela para a educação no Brasil?

Triches: O desejo de implantação destas duas matérias como disciplinas obrigatórias é um desejo de grande parte dos Educadores deste país, tão logo a lei 9394/06 foi sancionada. Ocorre que no período que o Presidente Fernando Henrique Cardoso era presidente, ele teve a oportunidade de fazer isso e não o fez. Não sancionou alegando que não haviam profissionais suficientemente formados para poderem ministrá-las. Contudo, o fato dele ter vetado a presente lei, evidencia apenas mais um dos seus paradoxos. Digo isso em relação a sua formação e ao seu discurso ao longo da segunda metade do século XX. A entrada em vigor desta lei possibilitará um salto qualitativo na Educação de nosso país. Digo isso porque entendo que não há transcendência plena possível no ser humano, sem a busca do significado de sua existência. E esta tarefa é própria da Filosofia, por exemplo.

 

Então, como a Filosofia pode contribuir para a formação dos jovens? 

Nós vivemos em uma sociedade onde as informações são intensivas. Por isso, dizemos que vivemos em uma sociedade do conhecimento. Pois bem, a quem cabe o papel de dar significação a estas informações que recebermos diariamente? À Filosofia. Em nosso entendimento, todas as ciências são como rios que deságuam no mar da Filosofia. Por isso, todos os grandes juristas, matemáticos, teólogos, pedagogos, entre outros, acabam se encontrando com a Filosofia. Uma outra razão significativa acerca da importância da Filosofia, já no Ensino Médio, reside no fato dela nos mostrar que todos os atores sociais têm uma história e, através dela, temos consciência do porquê estamos na história.


Por fim, mas não por último, penso que a Filosofia poderá contribuir na formação dos jovens à medida que ela possibilitará o aumento na capacidade de organização de suas idéias. Terão maior clareza de suas buscas. Repensarão a realidade que o cerca a partir de uma criticidade maior. Enfim, a busca das suas escolhas será mais fácil com a ajuda da Filosofia. 

 

Qual o conteúdo seria mais interessante para a grade, neste caso?

A organização dos conteúdos a serem trabalhados nos três anos do Ensino Médio, no meu entendimento, devem partir de recortes temáticos. Temas como: Liberdade, Ética, Cidadania, Política, Amor, Amizade, sexualidade entre outros. Contudo, tal abordagem deveria vir acompanhada de uma boa fundamentação, ou seja, como tais temas foram abordados ao longo da tradição filosófica: falarmos um pouco de cada Filósofo para que o aluno fosse se familiarizando com a linguagem própria da Filosofia.


Por isso, o professor precisa ser alguém que goste de Filosofia, que estude muito e que, a partir disso, procure abordar tais conteúdos com muita paixão. Tendo consciência que eles poderão ajudar os jovens a se tornarem melhor a cada dia. Em outras palavras, o professor deveria fazer uma demonstração envolvente destes conteúdos. De tal modo que o aluno pudesse perceber, de forma concreta, como tais conteúdos poderão ajudá-lo a resolver suas angústias cotidianas.
Devemos apenas lembrar sempre que a Filosofia é sempre um PENSE NISSO, e nunca um PENSE ISSO. É um conhecimento aberto. Capaz de contribuir com a formação da consciência crítica do nosso educando.

 

O argumento de Fernando Henrique para não implantação da lei realmente procedia? Ou seja, existem profissionais formados e habilitados para ministrar aulas de Filosofia em todo o Brasil?

A resposta desta questão não pode ser respondida com um simples sim ou um não. E por quê? Se a resposta fosse não, então alguém poderia dizer: - estava certo o Presidente anterior quando vetou esta lei. Ocorre que, se isso fosse levado a sério, então não poderia haver aulas obrigatórias de Química, Física e Biologia, por exemplo. Nestas disciplinas faltam profissionais habilitados há muitos anos.


Mesmo sem estarmos de posse de um quadro estatístico fidedigno acerca de quantos profissionais existem de fato formados em Filosofia, em todas as regiões do nosso país, creio que há consenso entre nós que de fato não temos o número suficiente de professores licenciados em Filosofia para, a partir de 2009, podermos implantá-la na grade curricular, nos três anos do Ensino Médio. No entanto, estou convencido que esta demanda será suprida ao longo dos próximos anos.
Quem nos ajudará a suprir esta demanda, no momento, serão os profissionais das áreas do conhecimento mais próximas da Filosofia. Nossos colegas da História, da Sociologia e da Pedagogia certamente nos ajudarão.

Para alguém ser Filósofo, necessariamente não precisa ser graduado em Filosofia. O que a pessoa precisa é ter no seu coração o amor pela busca da alethéia (verdade, em grego). Isso vem em primeiro lugar, certamente.

 

Há uma "lenda" de que alguns filósofos acreditam que a Filosofia é para poucos. Como a classe de profissionais em Filosofia recebeu a notícia da aprovação dessa lei? 

Agradeço por esta questão. De fato, ela é instigante e merece uma reflexão a respeito. Um dos grandes Filósofos do Séc. XX, Antonio Gramsci (1891-1936), defendia a idéia - da qual também comungo -, de que todos podemos ser Filósofos ou Filósofas. Este tipo de conhecimento não é, e nem pode ser privilégio apenas de alguns.


Basta primeiro que eu tenha a vontade de me dedicar aos estudos. Que eu queira, de forma sistematizada, buscar a respostas acerca de questões, como por exemplo, quem somos nós? Por que eu penso desta forma? Porque eu faço as coisas desta forma e não de outra?

É notório que a Classe dos de Cima, como dizia Gramsci, não querem a Filosofia. Porque ela acaba desvendando a trama do poder. As relações que existem entre a Economia e a Política e que a ideologia dominante tenta esconder a todo custo. Quais foram a primeiras disciplinas a serem banidas na época o regime militar? Faz parte do discurso ideológico dos que não querem a Filosofia e a Sociologia por perto, esta idéia de dizer que é uma coisa para poucos.


Ainda a este respeito, sem ter a pretensão de querer servir de exemplo, é a minha história como estudante. Reprovei dois anos em cada série. Isso da primeira até a quarta. Aprendi escrever meu sobre nome apenas na quarta série. Alfabetizei-me de fato a partir da quinta série com 15 anos. Depois nunca mais reprovei e acabei no Ensino Superior me encontrando com a Filosofia. Hoje eu diria que ela é minha festa privada. Sou apaixonado por ela e tento mostrar aos meus amigos que ela pode nos fazer muito bem. Principalmente depois que surgiu a Filosofia Clínica com Lúcio Packter.

 

A lei é apoiada pela a maioria, então?

Eu estou absolutamente convencido que é uma lei em prol da maioria. E também apoiada pela maioria dos educadores deste país. Aqui devemos lembrar de Condorcet, na época da Revolução Francesa, se fez esta pergunta: - “Quando que uma lei é justa”? A resposta que ele nos deu foi: “Quando é boa para todos”. Por isso, penso que esta é uma lei justa porque beneficiará todos os que vivem na condição de oprimidos e que desejam libertar-se de tais condições. VIVA A FILOSOFIA!

 

 
* Paula Felix é editora de
Filosofia Ciência & Vida.
(Nas bancas, a edição 23 - Felicidade em
Sêneca e Sponville
- Filósofos
usam Mito de Pandora para explicar que a esperança
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o verdadeiro obstáculo para uma vida feliz) 



Categoria: Filosofia
Escrito por Da Redação às 16h05
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Agir inatual

* Por Bruno Tripode Bartaquini

Nietzsche é o Deus de Zaratustra (seu personagem) porque foi ele quem o criou. E não vejo porque não afirmar que foi a sua imagem e semelhança. Zaratustra é um profeta considerado louco, que desce da montanha para anunciar a morte de Deus – não Nietzsche, o metafísico – e a vinda do além homem. Pois façam a barba do profeta, mas deixem o bigode, e teremos Friedrich dizendo aos modernos do século XIX  a mesma mensagem proferida pela alegoria chamada Zaratustra aos seus contemporâneos de uma antiguidade imaginária.

 

Toda esta tautologia não é lá muito útil, mas tem um sentido. Ontem assisti a uma pequena apresentação do prólogo de Assim falou Zaratustra somada a uma aula sobre o livro, na Casa do Saber. Antes de ficar mais sabido tentava achar algum meio interessante de relacionar a filosofia do pensador alemão da gema à disciplina a qual me encontro necessariamente vinculado, a História. Eis, porém, que Deus/espírito de Nietzsche guia minha mão até a gaveta onde eu presumia que estavam os parcos exemplares de Leituras da História fornecidos generosamente pela gráfica. Mas, pasmem embasbacados, a minha presunção estava completamente equivocada.

Abrira a gaveta de livros. Teria sido uma daquelas imperceptíveis micro frustrações que acontecem aos milhares durante o dia, do tipo gastei essa energia em vão, se não houvesse encontrado em pé, rindo para mim e todo azul, logo na minha cara, um livrinho escrito em letras garrafais NIETZSCHE, e em caracteres mais discretos, Da Utilidade e do Inconveniente da História para a Vida. UAU, uma coincidência mais mágica do que essa só se eu fizer ventar como Paulo Coelho.

 

É importante lembrar, porém, que ele [Nietzsche] critica os historiadores per se, que apenas ecoam as sinfonias do passado e que, além da falta de autonomia, ainda o fazem desgastando a força das nuances, que se perdem com o tempo, como o muito grave ou o muito agudo.

 

Enfim, não sou especialista em Nietzsche nem em utilidade, mas talvez conheça um pouco sobre como ser inconveniente. E talvez ser inconveniente seja o ponto desse livro que não li inteiro. Pelo que parece Nietzsche justifica o estudo da História de forma coerente com sua filosofia. Para ele, a História nos traz o conhecimento inatual(fora da atualidade) que devemos usar para o agir inatual. Ou seja, conhecer a forma de sentir o mundo de outras épocas nos ajuda a não cair nas armadilhas ideológicas de nosso próprio tempo: evita a alienação e nos faz transformadores da realidade. E o que é mais inconveniente do que a mudança?

 

É importante lembrar, porém, que ele critica os historiadores per se, que apenas ecoam as sinfonias do passado e que, além da falta de autonomia, ainda o fazem desgastando a força das nuances, que se perdem com o tempo, como o muito grave ou o muito agudo.  O lembrar só serve se impulsiona o agir. Se excessivamente pesado, o saber histórico, pelo contrário, é um fardo pesado demais que engessa e paralisa o movimento. Por isso deve-se saber apenas o tanto que se pode incorporar e transformar em combustível. Além do mais, Nietzsche ainda acredita que é mais fácil viver sem memória, como os animais mais simples, do que sem o esquecimento, esse sim essencial à vida.

 

As analogias desse livrinho com os propósitos das escolas historiográficas e com o resto da filosofia de Nietzsche são infinitas. Porém acho o mito do Eterno Retorno anunciado por Zaratustra muito parecido com o mito de Sísifo, retumbado por Camus. E quando vejo o esforço interminável de uma dízima periódica deixo o deus morto Nietzsche falar em meu nome: "A vida mais doce é não pensar em nada". Ingênuo, caro Friedrich, mas sedutor.

 

 

  
* Bruno Tripode Bartaquini é
editor de Leituras da História
(Nas bancas, edição 9:
Crise no comando do mundo - Os fatos
que puseram abaixo a histórica hegemonia dos
Estados Unidos e enfraqueceram um império
inabalável há mais de meio século.
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Categoria: História
Escrito por Da Redação às 12h17
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